Thursday, 3 May 2007

Carmona, o Conquistador

Naquele tempo, quase todos os alunos do professor Leandro Ferro eram conhecidos simplesmente pelo seu apelido. Algo que, entre muitas outras coisas, ficara firmemente estabelecido pelo nosso professor logo nos primeiros dias do já longínquo mês de Outubro de 1962.
Curiosamente, eu era a excepção. Todos me tratavam por Zé Carlos, professor incluído.


Uma bela manhã de primavera, na soalheira Escola Nº 24 do Bairro de S. Miguel, enquanto brincávamos no recreio ainda excitados com a empolgante descrição histórica da Tomada de Lisboa (um dos inúmeros episódios da História de Portugal recriados com a imaginação brilhante e o admirável talento do nosso professor), aconteceu algo de extraordinário que nunca mais esqueci.
Quando eu corria pelo pátio com os meus colegas sentindo-me, tal como eles, um cavaleiro de D. Afonso Henriques, perdi o equilíbrio e caí desamparadamente sobre um grande canteiro de flores recentemente plantado.
Não me magoei, mas como o estrago foi grande, o impiedoso jardineiro correu de imediato a participar o prejuízo ao professor que, para azar meu, tinha-nos recomendado momentos antes que ficássemos bem longe do dito canteiro por alguns dias.
Regressados á sala de aula, todos sabíamos qual o destinatário das reguadas que já se adivinhavam, porque, para aquele professor, a impunidade era amiga da desobediência.
Alguns dos meus colegas sorriam de prazer sádico pela desgraça alheia, tal como provavelmente eu próprio me rira deles em situações idênticas. Tolerável, pois tínhamos apenas sete anos.
Quando, após breve justificação para o acto, o professor ergueu a régua no ar e eu, de olhos fechados, me aprontava para conter na garganta o primeiro grito de dor, ouvi uma voz atrás de mim, que ainda hoje ressoa na minha memória:
- Fui eu que o empurrei... Foi sem querer mas… fui eu.
Ainda incrédulo, volto-me e vejo-o de pé, com o seu semblante sempre tranquilo e pacífico: era o Carmona.
Quando já alguns de nós, poucos, pensavam que seria então o Carmona o grande candidato a ocupar o meu lugar de suplício, o professor Ferro, visivelmente comovido, apertou-lhe a mão louvando o seu acto.
E, como não podia deixar de ser, aquele enorme pedagogo aproveitou de imediato a ocasião para, mais uma vez, nos dar a conhecer a importância dos valores supremos da honra, da dignidade e, como sempre, da justiça.
Ele acreditava que, tal como Lisboa em 1147, o carácter também se conquista.
Foi nesse dia, no dia da sua primeira “tomada”, que o Carmona foi “armado cavaleiro”.


Concluída a instrução primária não mais voltei a cruzar-me com ele. Mas, por nunca o ter esquecido, reconheci-o de imediato quando há alguns anos o vi pela primeira vez na televisão.
Ocorreu-me então um pensamento sombrio: como poderia uma pessoa como o Carmona manter-se vivo no mundo do embuste e da falsidade que, no meu entender, sempre caracterizaram o mundo traiçoeiro da política?
- Até que as hienas o cerquem e os abutres o devorem, será apenas uma questão de tempo, pensei.
Por isso, não pude conter um certo arrepio quando, no passado 25 de Abril, pressenti que aquele generoso cavaleiro, ainda com o mesmo olhar franco e leal de há quarenta e muitos anos atrás, já se encontrava insidiosamente cercado. E agora? – Perguntei-me. Resistirá ele valentemente ao último assalto, tal como o nosso professor nos ensinou?
- Claro que sim. A menos que seja traído no seu próprio reduto!... – diria certamente o velho Leandro Ferro se ainda fosse vivo.
Se, porventura, o Carmona cair, a nossa cidade, a sua última conquista, cairá também.
Mas, então, isso pouco importará, porque ele já conquistou os nossos corações…


José Carlos Brito de Almeida

7 comments:

Anonymous said...

O problema é sempre o mesmo e os inimigos naturais de Carmona, já há muito que se preparavam afiando as suas longas facas, os de fora e os do proprio partido. Creio que se a Camara fosse mesmo hoje a votos, a populaçao votante de Lisboa perplexa com este caso, nao o apoiaria em maioria, obviamente. Mas dentro de dias se verá. Os soaristas veem aqui uma oportunidade de ouro para voltarem ao poder- como se fosse possível comparar o carisma natural de Carmona com a soberba antipatia de João Soares, que, obviamente, se diz já estar pronto. Mas acaso alguém no seu estado de juízo perfeito pode acreditar que Soares seria naturalmente reeleito? Como este apoiante escreveu, aliás brilhantemente, mais que certo é que Carmona já conquistou os Lisboetas ha muito tempo. Alguns socialistas chegam a ficar nervosos com a solidez de Carmona e perdem todo o decoro na sua presença - é tb isso que os Lisboetas já repararam. Por outro lado Marques Mendes farto de tentar fazer sem sucesso uma oposição de jeito, revela apenas desvario e cabeça perdida, manobra de muito pouco inteligencia. Aproveita a oportunidade para brilhar em prime time em tom de justiceiro...mas o povo real de Lisboa odeia falsos puritanos. Carmona sobreviverá sempre na memória recente do povo de Lisboa como um presidente leal e forte. Este mesmo povo desfenestrará por votos todos os pobres fracos que se apresentarem como aspirantes a "Alcaide" desta nossa fantástica cidade.

J.Levy (func. da Camara de Lisboa)

Margarida Rolão Ferreira said...

Em 29 anos, nunca vi um discurso tão brilhante e convicente como o de hoje pelo seu "generoso cavaleiro"! A hombridade só existe em destacáveis heróis!! Já valeu a pena navegar contra a maré tortuosa de não ter um partido político!

Gatabaia said...

'ficara firmemente estabelecido pelo nosso professor logo nos primeiros dias do já longínquo mês de Outubro de 1962.
Curiosamente, eu era a excepção. Todos me tratavam por Zé Carlos, professor incluído.'
José Carlos Brito de Almeida era o patinho feio.
Mais que conquistador, o Sr. Prof. era, já, defensor dos desfavorecidos.
Comovente, mas não acresce nada à ideia que fazia do Senhor Professor, só reforça e dá-me alento saber que ainda existem pessoas com ética e convicções, mesmo em momentos adversos, nestes meandros políticos de obsoletos e duvidosos moralistas.

Bem haja Professor.

Sonya Mascarenhas

Lisboeta Independente said...

Não posso deixar de dizer ao Sr. Eng. Carmona Rodrigues o meu Obrigado, não só pelo seu trabalho em pról da minha cidade mas também pela sua coragem. Foi em si Sr. Eng que nós votamos, foi em si que nós confiamos, e é de si que estamos orgulhosos pela sua postura.

Conte comnosco sempre e se conseguir uma equipe do seu "calibre" não deixe de considerar a sua recandidatura.

Os Lisboetas estão consigo, o Sr. foi o unico Presidente decente dos ultimos anos.

Por tudo isso lhe digo OBRIGADO, pelo seu empenho e honestidade e coragem

Sino said...

Marques Mendes colocou o PSD a imitar o PCP.
Deu ordens para a purga social democrata na Câmara Municipal de Lisboa que, apesar das trombetas histéricas que por aí circulam, continua com reais condições de governabilidade, nos termos da lei..
Não fundamentou a ordem com desvios de natureza política, incompetência técnica, pressão permanente e insustentável dos eleitores.
Bastou-lhe a berraria da oposição que se recusa a renunciar aos seus próprios mandatos mas exige a renúncia aos mandatos da maioria, isto é, dos eleitos na lista do PSD.
E bastou-lhe também saber que Carmona Rodrigues e dois vereadores são cidadãos livres, inocentes das insídias da oposição, e no pleno uso de todos os seus direitos e deveres, designadamente de exercer os cargos políticos para que foram eleitos.
Definitivamente, Marques Mendes armou-se cavaleiro e fez uma fraca figura.
O estalinismo não lhe assenta bem.


Talvez trinta e três anos não sejam suficientes para formar costume nos partidos.
Mas é, certamente, tempo bastante para criar tradições profundas, caracterizadoras de uma determinada cultura que, porventura não vinculativa, sempre há-de constituir a inspiração de comportamentos uniformes, aceites pela generalidade dos dirigentes e das populações.
Essa tradição consolidada representa o sentimento comum e, por isso mesmo, não pode deixar de constituir a fonte do direito vigente e de determinar o sentido da sua interpretação na qualificação de factos e na sua aplicação, em concreto, pelos órgãos competentes.

Os partidos são instituições de direito público que, sujeitas à legislação geral e abastracta integradora da ordem jurídica portuguesa, gozam de independência organizativa e de funcionamento.
Têm os seus próprios órgãos legislativos e executivos, o seu direito, os seus próprios tribunais.

O PSD sempre interpretou e aplicou o seu direito, plasmado nos estatutos e deliberações regulamentares avulsas, à luz dos princípios da Liberdade e Responsabilidade individuais, atendendo às circunstâncias determinantes dos factos.
A experiência comum sempre foi factor decisivo na apreciação de comportamentos e fonte de deliberações, em resultado, não de acto formal, mas da sua própria natureza constitutiva.
O pluralismo sociológico, manifestado na diversidade da origem social, formação intelectual e técnica, na opção profissional e na condição de riqueza material, firmou a unidade ideológica no respeito pelo Homem, na Liberdade do Homem, na Dignidade do Homem.
E hoje, como há trinta e três anos, o PSD deverá orgulhar-se de ser um partido de homens livres e responsáveis, cada um igual a si próprio, que pensam e agem conforme o seu modo de ser e não em função do preconceito da moda social, em cada tempo imposta aos que fazem do vão exibicionismo e da precária ostentação a sua forma de estar na vida.

Na prática, o PSD sempre se distinguiu dos partidos estalinistas ou de inspiração e vocação estalinista.
Nenhum jornalista social democrata recebeu alguma vez instruções directas provenientes do partido; jamais um director de empresa social democrata foi instruído para organizar negócios num ou noutro sentido; não há notícia de advogado militante do PSD ter sido censurado no partido por representar interesses opostos aos seus; nenhum juiz de direito militante ou simpatizante foi pressionado para absolver ou condenar nem qualquer acusador público para arquivar ou acusar – o PSD sempre fez questão de separar o estatuto profissional da condição partidária.

E o mesmo em relação às funções políticas.
Na Assembleia da República, nos municípios, nas funções de nomeação partidária como na composição do Conselho de Estado, o Conselho Superior da Magistratura, o Tribunal Constitucional, dos sucessivos órgãos de fiscalização da Comunicação Social – sempre o PSD se limitou à escolha e nomeação, deixando o exercício à livre opção do nomeado e a sua avaliação aos instrumentos e normativos internos reguladores da ética e disciplina das respectivas instituições ou órgãos.
Iniciadas as funções, o partido regressava humildemente a uma retaguarda politicamente fiscalizadora e orientadora das instituições ou órgãos e preparada para apoiar politica e tecnicamente os seus indigitados, vítimas de eventuais perseguições ou comportamentos injustos.

A única consequência de eventuais comportamentos desviantes dos indicados seria uma avaliação de natureza política, traduzida na reafirmação das orientações gerais do partido, crítica pública, quebra da confiança política e na natural futura não escolha e nomeação para quaisquer missões políticas.

Marques Mendes, movido não se sabe bem porquê nem com que objectivos, veio alterar a tradicional relação entre a direcção política do partido e os militantes e simpatizantes indicados e apoiados pelo partido.
Segundo a tradição enraizada no PSD, estes militantes e simpatizantes, a partir da sua eleição, ficam especialmente dependentes do programa que apresentaram e da vontade dos eleitores que os elegeram.
É esta a regra aplicável, em particular num partido que se afirma virado para o exterior, respeitador da vontade popular, que dá preferência aos interesses gerais face aos seus próprios.
Tudo isto sem prejuízo de, em caso de dissonância grave entre a concretização do programa eleitoral (dos e pelos eleitos) e a doutrina do partido, o PSD ter o dever de a anunciar, reafirmar formalmente o que entender e, até, de retirar a confiança política dos eleitos que promoveu – e deve mesmo instaurar procedimento disciplinar interno em caso de violação grave dos deveres de militante.

O que não cabe na tradição de Liberdade e Responsabilidade do PSD é o presidente do partido comunicar a cada um dos eleitos uma instrução concreta para que renuncie ao mandato constituído por vontade popular. E ainda por cima sem qualquer fundamento em desvios de natureza política ou incompetência técnica; apenas porque essa é a vontade da oposição, para promover um imbecil e dar mais uma alegria ao governo.

Compreende-se o PCP como uma parte restante do estalinismo centralista e totalitário. Ele pode, compulsivamente reformar deputados e substituir presidentes de Câmara Municipal ou fazer as purgas que entender. Faz parte da sua natureza, da sua cultura.
O PS pode sanear gestores, despachar militantes inconvenientes para longínquas cadeiras douradas, extinguir instituições para acabar com pessoas, fechar jornais que não controla, rebentar com reputações, etc., etc….
Claro que toda a gente percebe a ansiedade do Bloco de Esquerda pela construção do caos, na senda da velha máxima comunista de trotsquistas/mrpp/udp’s e simplesmente diferentes, que se sonham a vanguarda única-sobrevivente dos escombros …

Mas o PSD nunca se confundiu com semelhante gente nem com comportamentos destes!!

PS: Marques Mendes conhece o estatuto de Arguido. E saberá que das medidas de coacção possíveis uma é a suspensão do exercício de funções, de profissão e de direitos. Sabe as autoridades judiciárias não aplicaram tal medida nem a Carmona Rodrigues nem a ninguém. Quererá Marques Mendes assumir função jurisdicional e aplicá-la aos Arguidos? Ele não percebe que o mais ridículo é aquele que quer “ser mais papista que o Papa”?

SINO said...

Esqueci-me de incluir título.Aqui fica agora: CARMONA É UM HOMEM LIVRE

Anonymous said...

De acordo com uma noticia do DN de Sábado fala-se de uma recandidatura do Prof Carmona Rogrigues à CML, caso se verifique o cenário de eleições intercalares na CML.
Da minha parte fico à espera desse momento e que todos aqueles que seguem este blog possam contribuir cada um há sua maneira.
O Prof. Carmona Rodrigues tem efectivamente o apoio de muitos Lisboetas fartos dos ditames e da forma de se fazer política em Portugal e em Lisboa.
Após o discurso do Prof. e com a garra que este demonstrou, aliado à sua forma de estar, ao seu sentido de ética, responsabilidade e capacidade de trabalho, estou certo que este é o MEU CANDIDATO e é com este que espero poder contar até às próximas eleições autárquicas.
Prof. conto consigo assim como os alfacinhas contam consigo.
Aguardo notícias da sua recandidatura na qualidade de independente.